Educar para o esclarecimento


A palavra “esclarecido” tem uma certa nobreza na nossa língua portuguesa. Se formos aos dicionários encontramos que o adjetivo “esclarecido” significa iluminado, elucidado, dotado de ilustração, saber, cultura. Quem é esclarecido é portado de uma certa “lucidez” e, portanto, sabe e compreende melhor as coisas. Talvez essa deveria ser a função mais importante da educação: tornar as pessoas mais esclarecidas. 

Historicamente a filosofia tem se ocupado em realizar a tarefa de tornar as pessoas mais esclarecidas. Talvez por isso, para alguns, a filosofia deve ser evitada. Ela pode se tornar perigosa, pois pode esclarecer as pessoas sobre a forma como funciona o poder, a corrupção, a exploração de uns sobre os outros; alguém esclarecido pode se dar conta dos processos de alienação que escravizam os trabalhadores, perceber as falsas promessas dos políticos, entender como funciona o sistema econômico, o jogo do poder, a propaganda enganosa, os males sociais, a destruição ambiental, o fanatismo religioso, os preconceitos raciais, a xenofobia, a mixofobia e tantas outras formas de patologias que ameaçam e destroem a convivência humana.

Em seu ensaio “O que é o esclarecimento?”, escrito ainda no século XIX, Immanuel Kant, um dos mais importantes filósofos da modernidade, diz que “o esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem”. O esclarecimento, portanto, segundo Kant, é ter coragem de te servires do teu próprio entendimento. 

Apesar de ser um texto escrito a tanto tempo e em outro contexto, percebemos claramente sua atualidade. De fato, estamos muito distantes de vivenciar o esclarecimento. Nossos estabelecimentos educativos pouco fazem para construir processos de esclarecimento. A menoridade denunciada por Kant se faz sentir de todas as formas. Percebemos com frequência a dificuldade que crianças, adolescentes e adultos têm de fazer uso do próprio entendimento. A grande maioria das pessoas preferem não pensar por si mesmo, e sim tomar emprestado o pensamento de outros. Trata-se de um processo de submissão ao já estabelecido, às circunstâncias do momento. Assim, temos dificuldade de enfrentar os problemas que nos cercam porque acreditamos que alguém fará por nós. O culto aos ídolos, a cegueira moral, o fanatismo político e religioso, a crença cega em qualquer informação que chega pelas redes sociais, a dificuldade de compreender as razões pelas quais temos a pobreza, a ignorância, a mortalidade infantil, o analfabetismo, a violência doméstica, a destruição do meio ambiente, a precarização e ataque à escola pública, a invenção de certos fantasmas como o comunismo ... são expressões materiais da vida cotidiana que ainda vivemos uma menoridade.

 

A ideia de esclarecimento está associada diretamente à ideia de autonomia. É esclarecida e autônoma a pessoa que é capaz de tomar as própria decisões, assumir a responsabilidade de suas escolhas e não culpar os outros pelas consequências provocadas pela sua decisão. Algo aparentemente simples, mas muito difícil de ser concretizado. É mais fácil deixar que os outros decidam por nós e assim não precisamos ter a responsabilidade de arcar com as consequências. É por isso que o próprio Kant diz que a menoridade é resultado da preguiça mental e da covardia pessoal de fazer uso do próprio entendimento. Talvez aqui resida um dos mais importantes desafios e compromissos educacionais: construir processos formativos que ajudem as crianças, os jovens e os adultos a saírem da menoridade e serem mais esclarecidas.