A sabedoria que vem do Mitos
Por que existimos? Por que existem doenças, maldades e sofrimento? O que existe depois da morte? Como viver uma vida boa? Por que coisas ruins acontecem com pessoas que fazem o bem? Por que os malvados não são punidos pelas forças divinas? Qual foi o início de tudo? O bem e o mal é uma criação humana ou são criações divinas impostas aos seres humanos? O ser humano é livre para fazer escolhas ou é simplesmente um fantoche que segue o percurso do destino? Quando se abate uma pandemia é porque os deuses estão decepcionados com os seres humanos? Essas e tantas outras perguntas são indagações frequentes na cultura humana desde os primórdios tempos. Por mais que tenhamos avançado nos conhecimentos da ciência, da filosofia, das artes e das tecnologias, ainda não temos respostas definitivas e conclusivas sobre boa parte destas perguntas.
Em seu livro A Sabedoria dos Mitos Gregos, o pensador francês Luc Ferry ressalta que os mitos antigos, ao contrário do que geralmente se diz em tempos de tecnologia, não são um apanhado de “contos e lendas” ou uma “diversão literária”, mas sim constitui verdadeiramente o cerne da sabedoria antiga, a origem profunda daquilo que a tradição da filosofia grega logo a seguir desenvolveu sob uma forma conceitual, visando definir os parâmetros de uma vida bem-sucedida para nós, simples mortais. Nesse sentido existe uma sabedoria de fundo nos mitos gregos que não podemos ignorar num bom processo de formação educacional.
De fato, tem razão Ferry quando diz que a riqueza trazida pela mitologia não se limita ao aspecto linguístico ou cultural, não está ligado somente às qualidades inerentes à forma da narrativa, assumida para transmitir seus ensinamentos. Os mitos trazem lições de saberia de uma profundidade filosófica e de uma modernidade espetacular. Enquanto tradição comum a toda uma civilização e religião politeísta, a mitologia não deixa de ser uma narração, uma tentativa grandiosa de responder, de maneira laica, à questão da vida boa, com lições vivas de sabedoria, sob a forma de literatura, de poesia e de epopeia.
Dentre os inúmeros ensinamentos provenientes dos mitos gregos, destaca-se a dimensão da morte e a clara distinção entre os seres mortais e imortais, entre homens e deuses. A principal características dos deuses é que eles escapam da morte e por isso são bem-aventurados, pois não tem esse terrível sofrimento de morrer. Ao contrário dos deuses, os seres humanos são os únicos seres deste mundo que tem consciência de que vão morrer. É esse medo da morte ou de perder quem amamos e queremos bem que causa pavor, angústia, medo no ser humano consciente. Mas ao mesmo tempo a certeza da morte provoca no ser humano atitudes de proteção, de cuidado, de prevenção.
A sabedoria dos mitos fez com que os gregos colocassem a morte no centro de suas preocupações. É a consciência da morte e as indagações relativas à finitude que impulsiona o ser humano a buscar uma descendência, ter filhos e deixar sua obra. Ter filhos é como se pudéssemos nos eternizar neles. De fato, sabemos muito bem que através dos filhos algo nosso continua sobrevivendo ao nosso desaparecimento. Os traços físicos, as características da personalidade são elementos que perduram na nossa descendência. A educação enquanto transmissão de algo é, de certa forma, um prolongamento que permanece nas futuras gerações, mesmo depois que morremos. Outra forma de se eternizar encontrada pelos gregos e ilustrada na sabedoria dos mitos foi o heroísmo e a glória decorrente. O herói é aquele que cumpre ações impensáveis para os simples mortais, mas que seus feitos são tão importantes para o coletivo que impedem o seu esquecimento, mesmo depois da morte.
Em termos educacionais a sabedoria dos mitos gregos nos ajudam a compreender que, talvez, não precisamos de parafernálias tecnológicas para constituir uma formação humana alicerçada em princípios éticos e promotora da justiça social. Se ainda almejamos um mundo melhor, mais honesto, justo e confortável, talvez precisamos rever certas escolhas e certos valores que nos colocam na direção de uma educação solidária e promotora de uma vida boa.